Homem já interage com a inteligência artificial no dia a dia da vida pessoal e profissional

“O que nos separa da inteligência artificial, o que faz do homem um homem e do robô um robô? É a centelha, a capacidade de uma entidade — seja ela biológica ou artificial — de entender a si mesma, de ter consciência de si mesma”

 

 

 

 

Diante o impacto crescente que a transformação digital já causa a todos nós e do que ainda está por vir, o portal IoT40 entrevistou Alexandre Winetzki, diretor de pesquisa e desenvolvimento da empresas brasileira Stefanini, para que nos dissesse como ele vislumbra o futuro que bate à nossa parte e já interfere em nossas vidas pessoal e profissional.

Recentemente, durante o evento Rio Futuro, realizado na capital fluminense, dividiu o palco com a plataforma de inteligência artificial Sophie para discutir a interação entre robôs e humanos. “Foi um momento interessante para debatermos o impacto da tecnologia na transformação digital dos negócios e da sociedade”, destaca Winetzki.

A Stefanini é uma empresa brasileira que, ao longo de seus 30 anos de existência, se tornou  uma das mais importantes provedoras globais de soluções de negócios baseadas em tecnologia. Para o evento, também apresentou duas experiências. A primeira foi o mergulho virtual em alto-mar. Em três estágios de profundidade, o visitante pôde identificar o envolvimento de equipes para cocriar soluções, projetos e mindsets de empresas inteiras. A outra experiência foi a chance de conversar com a Sophie, que está em sua versão 2.4. A chatbot atende em 40 idiomas e já foi implementada em diversos segmentos da indústria e do varejo, além de seguradoras e órgãos governamentais.

Por Marco Antonio Monteiro – Editor

Iot40 – Gostaria de saber qual é a proposta da plataforma de inteligência artificial Sophie, que já está em sua versão 2.7. Já se sabe que a chatbot atende em 40 idiomas e já foi implementada em diversos segmentos da indústria e do varejo, além de seguradoras e órgãos governamentais. O que ela faz e poderá efetivamente fazer com a evolução do projeto?

Lançamos a Sophie há dois anos e a plataforma já está em sua versão 2.7. A expectativa é lançar o modelo 3.0 em julho e implementar a tecnologia em pelo menos 40 outros clientes no Brasil, na América Latina, na Europa e nos Estados Unidos. Entre as principais vantagens da Sophie, está a redução do custo e do tempo de implementação de projetos, o que faz com que o índice de satisfação dos clientes ultrapasse a marca de 85%.

A versão 2.7 traz uma série de melhorias no núcleo cognitivo, com implementação de algoritmos genéticos e Common Knowledge Networks (abordagens técnicas únicas no mundo). A plataforma também consegue responder a partir de conceitos correlacionados (não apenas com base em frases ensinadas), memorizar conteúdos e identificar siglas, economizando tempo dos instrutores e dos usuários. Também possui um banco de imagens que permite que imagens sejam adicionadas às respostas.

A Sophie foi criada a partir de um modelo híbrido de inteligência artificial (IA), que une o melhor da escola Simbólica e da Conexionista ao oferecer redes semânticas capazes de representar conceitos e relações e contar com um alto nível para as tarefas de linguagem. A escola Simbólica funciona com símbolos abstratos que são utilizados para representar conhecimento. É a IA clássica, que processa a informação de cima para baixo, trabalhando com símbolos legíveis por humanos, conexões abstratas e conclusões lógicas. Este modelo é apropriado para trabalhar com linguagem, ou seja, problemas que podem ser verbalizados.

Já a escola Conexionista se tornou popular na ciência da computação no final dos anos 80. Aqui, o conhecimento não é representado por meio de símbolos, mas sim neurônios artificiais e suas conexões – como um cérebro reconstruído. O conhecimento reunido é quebrado em pequenos pedaços e, então, conectados e construídos em grupos. Essa abordagem é conhecida como o método de baixo para cima. Diferente da inteligência artificial simbólica, este modelo deve ser treinado e estimulado para que as redes neurais possam reunir experiência e crescer, acumulando um maior conhecimento, sendo apropriado para trabalhar com sons e imagens – problemas que não podem ser verbalizados.

 

IoT40 – Como você acredita que ficará a questão do emprego e educação a partir desta transformação digital, uma vez que se cria no país um exército de desempregados, quando muito com ensino médio não concluído em escolas públicas com aprovação curricular automática?

O avanço tecnológico sempre provocou impacto sobre o mercado de trabalho, por isso não estranhe se algumas profissões desaparecerem nos próximos anos e outras forem criadas. É só pensar no impacto que o carro autônomo deve provocar em breve: taxistas e motoristas de aplicativos não serão mais necessários, da mesma forma que profissionais ligados à mídia (jornalistas, atores, diretores…) deverão se beneficiar da novidade, afinal os antigos condutores poderão usar o tempo no trânsito para consumir entretenimento.

Nesse sentido, o papel dos governos é fundamental tanto para ajudar aqueles que precisarão se realocar no mercado de trabalho quanto para incentivar a educação. Em alguns países, já se discute a possibilidade de instituir uma renda mínima universal para lidar com os efeitos de um novo mercado de trabalho. Mas acho que as empresas também podem e devem contribuir. A Stefanini, por exemplo, faz um trabalho muito importante junto ao Instituto Stefanini, ao promover aulas de informática, hardware, software, entre outros, para moradores de Jaguariúna, Francisco Morato, São Paulo e Poços de Caldas (MG).

 

IoT40 – E a relação homem x robôs/plataformas de automação? É muita ficção científica pensar que poderão ocorrer efetivamente em pouco tempo “enfrentamentos intelectuais” quando o sistema automatizado de uma indústria totalmente adaptado ao conceito 4.0 decida interromper uma linha de produção por conta de uma necessidade de manutenção? E no dia a dia como você prevê esta relação no futuro?

Por trás da inteligência cognitiva da Sophie e de todos os algoritmos que desenvolvemos com nossos parceiros, está o propósito da Stefanini de cocriar tecnologias capazes de construir um mundo melhor. Então, o resultado esperado é uma inovação capaz de trazer benefícios para a humanidade. Mas essa é a tônica de todos os que lidam com desenvolvimento tecnológico? Não. Por isso, é importante que as empresas invistam em tecnologias capazes de evitar ataques mal-intencionados de hackers cujo propósito é extorquir ou provocar danos.

Dito isso, acredito que, com as novas tecnologias, estamos adicionando inteligência artificial à nossa — é o caso da visão computacional que é muito mais avançada para identificar um rosto na multidão. Mas é importante distinguir também inteligência e consciência. Existem máquinas extremamente inteligentes e nada conscientes. Portanto, o que nos separa da inteligência artificial, o que faz do homem um homem e do robô um robô? É a centelha, a capacidade de uma entidade — seja ela biológica ou artificial — de entender a si mesma, de ter consciência de si mesma. É o que faz você abrir os olhos de manhã e pensar que o dia vai ser bom, pois tem uma entrevista de emprego ou que você se esqueceu de comprar escova de dente na compra do mês. Nenhuma máquina ainda é capaz de fazer isso, mas é uma questão de tempo de quando isso vai acontecer.

Para Elon Musk, Bill Gates e Stephen Hawking, isso pode significar o fim da civilização, porque as criaturas seguirão o que o criador tiver ordenado e nós não somos uma raça benigna. Ou seja, para eles, não será uma disputa entre homens e máquinas e, sim, homens com máquinas versus outros homens. Daí a importância de a sociedade criar uma maneira de incluir a todos, de modo que o mundo não se divida entre ricos conectados à inteligência do Google contra pobres desconectados. Voltando ao propósito da Stefanini, nós temos consciência do nosso papel enquanto empresa para reduzir o gap de desigualdade e criar um mundo melhor.

 

IoT40 – Como você vislumbra a inserção do Brasil neste momento em que se consolidam a IoT, a indústria 4.0 e a Inteligência Artificial no mundo inteiro? Estamos muito defasados? Em qual desses segmentos o Brasil pode contribuir de forma efetiva e contundente?

Alguns setores brasileiros são extremamente avançados, como o agronegócio, que conta com maquinário de última geração, com softwares de inteligência artificial e drones para fiscalizar a produção. Outro segmento bastante evoluído é o setor bancário. Nós, por exemplo, temos uma parceria com a Caixa Econômica Federal e desenvolvemos uma ferramenta de inteligência artificial chamada Aixa, que deverá beneficiar mais de 150 mil usuários via portal de autoatendimento interno do banco ou via Skype for Business. O objetivo é que a Aixa ajude os colaboradores a resolver questões internas, além de realizar consultas. A ferramenta é capaz de interagir com usuários e sistemas por meio de um conjunto de interfaces de texto. As interações passam a seguir fluxos de conversas simples e naturais, permitindo a busca de informações de maneira dinâmica nos sistemas da Caixa, além de facilitar a abertura de tickets de atendimento (Requisições de Serviços e Incidentes). Tudo de forma integrada e intuitiva.

Também fizemos uma parceria com o Banco Original, que é 100% virtual. A abertura de contas é feita remotamente, o gerente comercial atende e dá orientações de investimento em uma plataforma disponível em tablet e a entrega de dinheiro em espécie, assim como de cartões e cheques, é feita por meio de integração com sistema de canais. Isso é totalmente disruptivo e inovador. O Brasil tem muito a oferecer.